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Comunicados

Desafios à frente
O jogo da consolidação do mercado está ganhando novas regras que vão marcar o setor em 2010. Se os prognósticos de especialistas se confirmarem, os próximos 12 meses serão um bom período para as instituições de ensino superior privadas que estão fazendo a lição de casa. Os desafios vão aumentar, mas favorecerão quem está investindo em profissionalização da gestão, o que não se restringe aos grandes grupos educacionais.
 
Apesar da esperada perda de força dos efeitos da crise financeira internacional, há novos fatores a serem considerados. A sopa de letrinhas do Ministério da Educação ficou mais salgada, com regras de avaliação mais rígidas, e seus efeitos se farão sentir notoriamente em 2010. O número de egressos do ensino médio começa a estacionar e, por isso, espera-se que o aumento do número de candidatos à graduação também estagne. Esse dado, inclusive, já tem sido demonstrado pelo Censo da Educação Superior. Em sua última edição, relativa a dados de 2008, a coleta de dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) apontou cinco milhões de universitários no Brasil, contra 4,8 milhões em 2007. Longe do índice de crescimento de até 13% registrado no início dos anos 2000.
 
Se por um lado há a perspectiva de retomada do processo de consolidação do mercado, com a concentração de matrículas em poucos cursos e instituições, por outro, a sobrevivência estará cada vez mais vinculada à entrega de resultados consistentes pautados pela gestão empresarial e pelo uso de criatividade na remodelação dos negócios.

A crise financeira internacional serviu de motivo para o congelamento de fusões e aquisições, que em 2007 e 2008 observaram uma explosão. O movimento deve ser retomado agora, mas com muito mais critério por parte dos investidores.

"Em 2010 o mercado estará mais seletivo. Com o MEC mais restritivo, as instituições de qualidade inferior serão punidas. E isso pode ter efeito nas fusões e aquisições", afirma Eduardo Wurzmann, presidente do grupo Veris Educacional que detém as marcas Ibmec e IBTA.

O executivo diz esperar que o mercado apresente um crescimento moderado, com crescimento de matrículas entre 5% e 10% com relação a 2009. "Os cursos de avaliação 1 ou 2 agora têm de passar por avaliação complementar. As empresas que crescem por meio de aquisições vão se preocupar mais com a notas. Haverá um número maior de fechamentos ou vendas. Os grupos maiores estão colocando pressão e a vida de quem apresenta resultados ruins ficará ainda mais difícil", diz Wurzmann.

Para o consultor e professor Carlos Antonio Monteiro, fundador e diretor-presidente da CM Consultoria de Administração, "com muito otimismo" serão realizadas 30 a 40 aquisições em 2010. Segundo ele, haverá também um crescimento das parcerias com fundos de private equity, que estão de olho em organizações não necessariamente de topo, mas que apresentam um grande potencial de crescimento. "Essa tendência - que só deve beneficiar as organizações bem estruturadas - é considerada um modelo de crescimento rápido com pouco dinheiro investido. UBS [fundo de private equity] e a Fanor [Faculdades Nordeste] foram o primeiro exemplo disso. O fundo não está preocupado com o que funciona hoje, mas o projeto de futuro. Ele entra para viabilizar o projeto aprovado", diz Monteiro.

Ele se refere à compra das Faculdades Nordeste (Fanor) pelo grupo DeVry, instituição educacional com mais de 100 mil alunos em 30 países e capital aberto, com ações na Bolsa de Nova York. A DeVry assumirá com 69,3% do Grupo Fanor, incluindo o caixa e a recapitalização das dívidas da faculdade.

A qualidade e a capacidade de inovação nos cursos oferecidos, além da possibilidade de expandir a metodologia pelo Brasil, atraíram a DeVry para o negócio. Monteiro destaca que os principais vendedores - os Fundos de Investimento Nordeste Empreendedor e PCP, administrados pelo UBS Pactual -, no momento da aquisição já pensavam em vender integralmente suas participações de olho no potencial lucrativo dos negócios.

Os casos de instituições com baixa avaliação e manutenção de investimentos vão acabar, afirma Monteiro. "O aluno está evitando organizações que tenham notas ruins de IGC [Índice Geral de Cursos] e CPC [Conceito Preliminar de Curso]. Algumas instituições reclamam que o número de candidatos está abaixo do esperado no processo de escolha para 2010. Isso é uma resposta direta às notas. As instituições vão ter de se preparar", defende.

Os especialistas são categóricos ao dizer que os dias estão contados para a velha estratégia de competição via guerra de preços e criação de novos cursos. A concorrência e a demanda vão continuar, mas com crescimento pequeno devido à saturação do mercado.

"A estratégia de criação de novos cursos é perigosa. Abrir novos cursos significa ter menos alunos em cada um deles. É preciso dividir mais as turmas, pagar mais professores. Essa não é uma solução sustentável. É uma bomba de retardo. No terceiro ano, o número de alunos fica tão pequeno que torna o curso inviável", analisa o consultor e professor Roberto Leal Lobo e Silva Filho, sócio-diretor da Lobo & Associados Consultoria.

Com a estagnação do número de novos egressos do ensino médio, o jeito é competir atraindo alunos dos concorrentes, o que significa melhorar o valor agregado dos produtos ofertados. "As escolas estão vendo que terão que competir por oferta de valor, como as do mercado A/B. Nenhuma delas está pensando em baixar o valor da mensalidade. Não há delta de crescimento por aumento do número de participantes nessa classe. As classes A e B são 30% do público do mercado educacional e representam 60% da movimentação financeira", diz Monteiro.

Essa tendência também demandará novas estratégias de marketing em 2010, na opinião de Monteiro, que defende um novo posicionamento para as instituições. "Não adianta fazer mar­keting bom de produto ruim", diz.

Segundo o consultor, a busca por diferenciais engajadores que ponham os alunos em primeiro plano e os façam perceber de forma mais tangível como suas necessidades e desejos serão satisfeitos pela instituição deve marcar os modelos exemplares de marketing em 2010.

O caminho, na opinião de Monteiro, é transformar o marketing de experiência - que inclui um investimento maior em novas mídias, como as redes sociais como Twitter e Orkut - em filosofia institucional, revelando ao aluno que a instituição está preparada para ajudá-lo a realizar seus sonhos e oferecer benefícios pragmáticos.

"Não é só valorizar a marca. Tem de criar um vínculo emocional. Vivemos na sociedade das emoções. Ter foco no cliente é superar as expectativas dele. É colocar o aluno no centro das atenções. Oferecer o que realmente os alunos querem quando contratam uma instituição de ensino. A graduação é para o aluno um momento inesquecível, um sonho. É preciso criar uma relação de amor com o que está sendo oferecido. O caminho é evoluir das mídias de massa para mídias alternativas. Das campanhas de vestibular para campanhas institucionais anuais em mídias sociais", recomenda.

Receita de sucesso: choque de gestão...

Em 2010 o mercado verá o surgimento de um "marco decisório do choque de gestão", diz o consultor Carlos Monteiro. Segundo ele, muitas organizações, independentemente do porte, já estão colhendo frutos por investir em inteligência e estratégia na gestão. "Manter o modelo antigo não gera mudança. O caminho é produzir novas soluções, adaptar os talentos internos ao novo modelo e chamar gente nova que trabalha dentro de sua filosofia", afirma.

Outro grupo de instituições tradicionais deve se destacar em 2010 graças à adoção de uma nova estratégia gerencial. Monteiro menciona a criação das redes confessionais - tendência que está surgindo tanto entre evangélicas, quanto entre as católicas - como bom exemplo de modernização das tradicionais. "Isso será fantástico em 2010. As redes católicas estão centralizando compras. As confessionais estão ultrapassando o mero vínculo de origem religiosa e passam a ter um vínculo operacional", explica.

Também deve ganhar destaque em 2010 o surgimento de instituições de nicho inteligentes e estratégicas que fazem uso da força das pequenas e médias empresas. "As que escolheram efetivamente o nicho de mercado em que querem atuar estão indo bem", afirma. Segundo Monteiro, 80% do mercado tem menos de dois mil alunos, o que configura um perfil de micro ou pequena empresa. "Da maneira como funcionam hoje, não servem para ser adquiridas e não têm perspectivas de permanência no mercado. Entretanto, as que aproveitam as qualidades das pequenas empresas - que são mais ágeis, muito boas no atendimento, têm senso de pertinência muito grande -, estão aprendendo, a duras penas, que a melhor maneira de competir é esquecer as armas dos grandes grupos e focar os buracos de suas armaduras", diz.

As instituições de pequeno e médio portes já estão colhendo frutos e vencendo as instituições gigantes, onde essas não podem ou não querem atuar, como bairros menores e de difícil acesso, nos quais o custo operacional para os grandes grupos é alto. As pequenas, localizadas nessas posições, passam a ser o único ponto de atração cultural. O preço e a localização são as grandes variáveis no mercado C e D.

Também se destacam as instituições que trabalham com nichos especializados como as faculdades de tecnologia. "Elas acabam detendo um nível de competência acima da média na área em seus nichos. Esses modelos todos estão em fase de experimentação. Cada uma tentando criar o seu caminho", afirma.

... e inovação acadêmica

A inovação é premissa para a sobrevivência em 2010. Quem não investir na área não vai conseguir reduzir custos, aumentar o valor agregado e engolir a sopa de letras do MEC. "Na área acadêmica, inovação gera criatividade, que gera inovação, que gera criatividade. Se você não reimaginar a sua área acadêmica estará decretando sua sentença de morte", diz o consultor Carlos Monteiro.

A reformulação da gestão do corpo docente será o grande desafio de inovação a ser superado pelas instituições, na opinião de Roberto Leal Lobo e Silva Filho, sócio-diretor da Lobo & Associados Consultoria. "A exigência do MEC por um número maior de professores titulados trabalhando em tempo integral é uma das novas normas mais impactantes", diz.

Lobo lembra que as instituições não universitárias têm agora normas equivalentes às das universidades. "Só que as menores não estavam preparadas. Elas não têm o número de doutores e professores em tempo integral que é cobrado".

O gasto com os docentes será o grande desafio dos próximos dois anos, na opinião de Lobo. "Será vital administrar melhor o corpo docente. A mensalidade terá que ser baixa para ser competitiva. As novas regras demandam muito mais investimento", diz.

Fonte: Revista Ensino Superior